segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Tecnologias

O fim-de-semana correu bem e conheceste alguém interessante que achas valer a pena manter enquanto as coisas vão de feição. Bons momentos entre lençóis, muitas gargalhadas, filmes com direito a pipocas e a uma manta quente, vinho e chocolate, uma versão do jogo das escondidas com as câmaras dos smartphones e até alguma cumplicidade enquanto se cozinha qualquer coisa parecida com o que acabamos de ver ao Henrique Sá Pessoa na TV. Os dois dias passam rápido, chegam as despedidas com a certeza que se seguirão vários fins-de-semana semelhantes, o que te deixa com um sorriso parvo na cara.
Na segunda-feira, dia de ressaca, começam as inevitáveis trocas de sms e as frases feitas de saudades e contagens decrescentes. Na segunda-feira chega-te um pedido de amizade no Facebook que ela, sorrateiramente, descobriu, ainda que permaneças bem camuflado nessa necessária modernice. Aceitas e ris-te ao ver o que no perfil dela aparece; é sempre uma surpresa comparar a pessoa e o seu mural, quase sempre são inesperados, quase sempre não combinam totalmente.
Ainda não passou das 15 horas e já trocaram sms, uniram-se no Facebook e... foda-se, aqueles boxers que vês numa foto são os teus!!! "Fulaninha identificou-te numa foto", lês nas tuas atualizações. Não autorizas a identificação mas da foto não te livras; minutos depois, a mensagem repete-se mas agora, eis a tua tromba espetada no Facebook dela, com cara de parvo, no meio de uma manta e de copos de vinho e a frase "fim-de-semana inesquecível com o fulaninho...". Entras em pânico, a pintura está borrada e tu esparramado num Facebook qualquer. Seguem-se insistentes "likes" em tudo o que é texto teu, tantos que chegam ao mês passado, e no mural dela, sucedem-se os comentários às fotos onde apareces; amigos e amigas a destilarem admirações, desejos de felicidades, a criticarem o padrão dos boxers e da manta e a procurarem saber quem é "o príncipe que encontraste?".
Eliminas a amizade, apagas os sms e terminas com uma simples mensagem: borraste a pintura.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

q.b.

Haverá poucos homens que não gostem, ou não se sintam atraídos, por uma mulher física e sem quaisquer tabus; daquelas que não têm preconceitos, muitos limites e sejam insaciáveis na cama, dispostas a alinhar em qualquer proposta mais arrojada, algo muito próximo da máxima inventada por esse garanhão chamado Marco Paulo: "uma lady na mesa...".
O problema é que isso, quase sempre, e como tudo o que é demais, enjoa. Ter uma mulher que constantemente pede, pensa e gira em torno do sexo, torna-se demasiado cansativo, intimidatório e, no fim, cria aversão a quem antes achou muita graça ao arrojo. Com a voracidade permanente, um gajo acaba por querer é fugir de tudo o que tem a ver com sexo e ainda ficamos com a sensação que o sexo em casa será apenas uma parte de todo o sexo que ela precisa e, por isso, não será descabido imaginar que o terá emm escapadinhas bem orquestradas.
Para evitar borrar a pintura, o ideal é encontrar o equilíbrio numa mulher, algo que parece fácil, passando por alguém para quem o sexo é vital, sobretudo, se for desenfreado mas, ao mesmo tempo, consegue demonstrar que não é nenhuma ninfomaníaca e que pode muito bem passar uns dias sem pensar, falar ou meter-se em mamadas, orgias, fodas por trás, etc. Daquelas que resistem a meter-nos a mão na braguilha no escuro do cinema vazio, durante um filme do Pasolinni ou que nos deixam dormir porque estamos cansados e simplesmente não nos apetece.
O que encontrámos é, geralmente, aquelas que borram a pintura quando libertam um "isso não" ou as que, por oposição, têm garrafa no clube de swing, números de telefone para trios de última hora e ainda acumulam tudo isto com blogues eróticos onde salivam desejos e sonhos molhados. E depois há as que falam, falam mas não as vemos fazer nada.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Dresscode

A passagem de ano tinha sido de caixão à cova. Demasiado champanhe, precisamente aquela bebida que dá a pior das ressacas; demasiado barulho, tabaco e produtos nocivos à saúde mas que insistimos em utilizar para acelerar a vertigem de descontração que a esperança de novos dias nos trás.
É claro que a festa não podia acabar sem ser na cama de alguém que provavelmente ter-se-á enganado no gajo e copo atrás de copo me confundiu com um qualquer Mark Vanderloo e, segundo me recordo, deu um verdadeiro recital de como foder em condições. Isto, é claro, antes de acordar e reparar que, afinal, o tipo que estava ali era banal mas dava para os gastos.
Mesmo num estado de euforia fora do habitual e com a visão turva, nunca achei que aquela mulher seria perfeita ou potencial fruto de um relacionamento de mais do que um ou dois dias, no entanto, fiquei impressionado comigo mesmo, pois o meu pior tinha-me oferecido algo próximo do topo de gama.
O acordar foi lento, numa cama desconhecida que, mais tarde, viria a perceber que era a cama dela e a julgar pelos lençóis e tudo à volta, haveria motivos para ficar, desde logo, a vista para um mar que não percebi se era a norte ou a sul. Basicamente, não fazia a mínima ideia de onde tinha ido parar, mas sabia que se não tomasse um ou dois cafés de imediato correria o risco de prolongar a amnésia e ser incapaz de organizar os próximos passos.
A uma distância segura, vejo-a pentear os cabelos longos e loiros, ainda com as curvas prolongadas e suaves, condizentes com uma pele cuidada e clara, bem visíveis e sem nada que as cobrisse. Sim, o peito encheu-se de orgulho. Pergunto-lhe se podemos ir a um cafezinho perto beber um café e regressar depois para tomar banho, recolher os despojos e partir depois para o novo ano. Ela concorda, pede uns minutos para se vestir, os mesmos que me são concedidos para abrir um pouco mais os olhos, tentar obter uma localização e procurar o que vestir e onde vestir.
Pouco tempo depois, lavo a cara, fumo um cigarro e procuro no chão roupa que me deixe sair de casa. Uma t-shirt, um sobretudo, umas calças amarrotadas e os sapatos possíveis. Estava pronto para o café. Do outro lado não se ouvia muito mas já reconhecia o barulho de saltos. Até que volto a vê-la, rodando no dedo indicador o porta-chaves onde se via o símbolo da Mercedes. "Vamos?", perguntou sorridente como se a festa não lhe tivesse oferecido rugas. Eu não tenho um Mercedes, imaginei que fosse o dela, e isso fez-me questionar onde é que eu teria deixado a merda do meu carro, como é que eu teria chegado a esta praia ainda por identificar?!
"Vais a uma festa?", retorqui ao ver o espectáculo. À minha frente estava ela, de vestido curto, com meias de vidro, um casaco de pele, saltos altos e o rosto finalizado com pintura completa. Atraente confesso mas, claramente, too much para quem vai ao café da esquina beber um café que apague uma ressaca. Olho para ela e olho para mim e vejo um Oceano de diferenças e concluo: borrou a pintura.
Quem é que se produz daquela forma para sair, entrar no carro, andar uns metros e passar cinco minutos num café manhoso onde será de esperar que somente a terceira idade que já passou os anos que tinha que passar marcará presença? Idealmente, bastaria um discreto fato de treino, um camisolão e umas calças, nada mais.
O outro dizia que "não se ama quem não ouve a mesma canção", mas eu garanto que não se ama quem não se aproxima do nosso dresscode em cada momento. Não se trata sequer de estilos, mas da sintonia necessária para ambos perceberem o que vestir a cada altura.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Alcunhas

No dia-a-dia somos confrontados com verdadeiros atropelos ao bom gosto no que toca a diminutivos, alcunhas ou semelhantes. Tomar o pequeno almoço num café e ver alguém do outro lado do balcão tratar-nos por 'jovem' é um mau começo de dia, tal como encontrarmos um conhecido que nos apresenta a mulher que tem ao lado como sendo 'a minha esposa' ou vermos a mãe de uma qualquer miúda trata-la insistentemente por 'princesa' ou 'boneca'.
São, mesmo assim, merdas que irritam mas passam ao lado. As piores são mesmo a que temos que aturar e que são direccionadas a nós. As mulheres têm muito essa tendência; esquecem-se rapidamente do nosso nome e começam a chamar-nos as coisas mais ridículas que possamos imaginar, isto quando não têm aquele vício impossível de acrescentar 'inhos' a tudo quanto mexe e não mexe. Porque é que um café tem que ser um cafezinho, ou um fome, 'fominha'? Há quem diga que é o instinto maternal e protector que as faz imediatamente tratarem-nos como putos, o problema é que se somos putos não podemos ir para a cama com elas...
Entre as pinturas borradas, já perdi a pica toda com alguém que atirou com um 'isso, bebé!', em pleno acto; já procurei um buraco no chão quando fui apresentado como 'o meu ursinho' e fiquei sem saber o que responder depois de levar com um 'estás pronto, mor?'. Escusado será dizer que depressa o bebé começou a andar e deu passos rápidos para o mais longe possível, o ursinho não rugiu, fugiu, e o mor mostrou-lhe que faltava o 'a' e sem ele não havia relação que resistisse.

sábado, 27 de dezembro de 2014

Viagens (parte 2)

Sempre achei, mesmo antes de ter chegado à conclusão de que não há princesas, que a melhor forma de viajar é sozinho, sem necessidade de compatibilizar vontades ou organizar planos que satisfaçam todas as partes. Mesmo assim, se um gajo está disposto a meter-se numa relação mais ou menos séria, mais cedo ou mais tarde, vai ter que se meter num avião qualquer e viajar acompanhado. A primeira dificuldade é escolher o destino e, lá chegado, conseguir sintonia naquilo que se pretende obter numa viagem. Por isso, este é um momento delicado, onde facilmente elas borram a pintura em grande escala.
Várias vezes, quando encontrei alguém com quem cheguei a pensar poder vir a passar férias conjuntas ou simpesmente dar uma escapadinha, fiz um teste infalível, evitando assim ser tramado em pleno território forasteiro onde não há muito mais a fazer senão aguentar até ao regresso. É simples e passa pela pergunta: quais seriam as tuas férias de sonho? A partir daqui surgem, sem contenção, um chorrilho de descrições capazes de borrar a pintura da Capela Sistina.
Já nem falo nas frequentes excitações por Bora Bora ou praias semelhantes. O momento de fugir chega quando começo a ouvir descrições de férias em resorts de luxo em coisas como Varadero, Cancún ou México, daquelas com direito a pulseirinha e a passagens fugazes pela realidade ali ao lado para ver os nativos, habitualmente pobres e ranhosos que enternecem o turista que dali sai a achar que desceu ao país  profundo. Felizmente, nunca tive nenhuma a acenar com a Gran Canária ou Benidorm, embora entre estas e as anteriores a diferença seja apenas semântica.
Entre as que se metem a tentar ser um pouco mais sofisticadas, escolhendo cidades cosmopolitas, as coisas complicam-se quando atiram com uns beijos no topo da Torre Eifell, umas selfies no Madame Toussaud ou uma passagem rápida pela Estátua da Liberdade. Claro que, pelo meio, suavizam a coisa com visitas a museus que julgam serem intlectualmente arrebatadores.
Com tanta pintura borrada, as viagens prosseguem sem companhia.